Eu tenho encontrado tanta beleza na ausência de sentido, nisso da existência brotando, acontecendo sem nobre fim metafísico, feito montanha que o vento molda sem quê nem pra quê. Às vezes o desenho é beleza, às vezes nauseante feiúra, entre uma coisa e outra há ainda as misturas e o espectro todo. E nada, nada, é perenemente a mesma coisa: a gente ganha perdendo, nasce morrendo, acolhe a água entre os dedos que serão a própria saída. Encontrar é perder. Seremos sempre interrompidos. *Fazer da interrupção um caminho novo: enxergar que a interrupção é o caminho novo. Curar a cegueira. A gente empina a cabeça e não desgruda os olhos do pódio metafísico: a felicidade, a paz e o resto todo dos pronomes definidos e absolutos. Nós somos muitas e muitas vezes cegos para o caminho, quando o caminho é só o que há, cheio da vida, a própria vida. Caminho libérrimo e inútil. Clarice: ‘‘ “Obcecado pelo desejo de ser feliz eu perdi minha vida”. Curar-se da cegueira e também despir-se da solenidade: construir a estátua depois meter o martelo. Ah, bendito o dia em que descobri como é sublime enlouquecer e martelar as estátuas todas, ''dessolenizar''. A solenidade tolhe a liberdade, proíbe a mudança, represa o vento para eternizar o desenho. Mas há sempre as brechas, e as brechas são a semente da anarquia. E que sempre existam as estátuas para que sejam marteladas e as represas para que sejam minadas. O embate é que é a vida, a dança, a libérrima existência. Em mim, quero os pensamentos todos em contradição e respeitosa luta, sem vencedores vitalícios, ainda que sedentos pela vitória.
Curar-se da cegueira e também livrar-se da soberba. Minha tristeza ou alegria não é conspiração de universo algum, nem contra nem a favor. Isso de merecer ou desmerecer tem que ser encarado como sentimento que é. Quando depois de muito esforço se perde o jogo, é claro que a gente fica puto, se sentido injustiçado. Mas justiça/injustiça é baliza nossa, código nosso: a vida, a vida se fazendo, prescinde dessas teorias. E assim como a gente ganha, com ou sem esforço, e se lambuza no gosto bom da vitória, a gente também perde. Sabe, não há mistérios. Só há mistérios quando se pressupõe uma verdade absoluta esperando ser descoberta. Há, sim, as perspectivas, há a gente descobrindo maneiras de ver, de encarar, explorando. Isso é que é bonito. Mais uma vez falo em termos de sentimento, a verdade é um sentimento. Aquele que nos percorre, o corpo todo dizendo '' é isso!". Sem absolutismos, como sensação, que passa e dá lugar a outra. De modo que eu não estou dizendo que não busco a verdade, eu só não mais acredito na verdade absoluta e solene a minha espera. O que procuro agora são esses instantes do corpo dando conta dos encontros, do gemido de gozo '' é isso!".
Cada vez mais tento viver o mínimo possível em função do devir. Da esperança. De pensar que se agora é uma hora de dor, eu seria recompensada com um futuro qualquer de alívio. É difícil, duro, encarar que não há recompensas. Sim, sim, pode ser que daqui a pouco eu seja toda alegria, mas não como recompensa, como se o mundo se apiedasse e desse uma folga. Não, assim não. Como jornada, como caminho, como a vida se fazendo, alternância. Cada vez mais tento sofrer melhor. Choro, choro, esperneio, curto a ferida, cutuco, faço manha, peço colo... Mas só por um tempo, nada de se apoiar na dor, solenizar o sofrimento, se fazer de vítima. Depois de sentir o chão, há que se levantar, enxugar o rosto, passar mertiolate nos arranhões, suturar se o corte foi mais profundo, enxertar se mais grave ainda, se não tiver mesmo conserto, procurar uma distração. Fácil?!Fácil nunca é!Mas quem disse que seria fácil? E claro, o esforço não é garantia de nada. Pode ser que, mesmo depois de luta incansável e corajosa, pode ser que a gente não levante. A vida é sem garantias. O que estou dizendo, é que cansei de procurar culpados e justificativas, bengalas, uma esperança paralisante. O que estou dizendo é que ando procurando, e eventualmente achando, as forças de encarar que se hoje o dia foi ruim, o dia foi ruim e pronto. Olha o ruim bem nos olhos, sofre, depois parte pro o outro.
* Fernando Sabino: “De tudo ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria sempre interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro."