quinta-feira, 26 de março de 2009

Então fecha os olhos e pula. Pula, que não há outro caminho e o salto sempre foi. Pula, que pode ser raso e arrancar sangue, mas pode ser fundo e arrancar gozo. Pula, que haverá o sangue e haverá o gozo.

Por mais liberta que estivesse, havia ainda um constrangimento, um encolhimento do corpo e da alma. Como último pensamento, passou-lhe ainda pela cabeça que poderia ser de frio os músculos flectidos:também.Era do frio, do medo, do gozo...era da plenitude a qual nunca havia se permitido experimentar.


sábado, 21 de março de 2009

Uma palavra e nada mais existiria. Os estilhaços a serem recolhidos, a vida a ser transformada...Os botões em preto e branco assim combinando com o telefone mudo, com a mensagens sem resposta. E era difícil respirar: alguma coisa tapando e cegando. Que o amor não era pra mim, que a poesia não era pra mim, como não perceber quando tudo era tão claro, tão claro?Mais uma vez sozinha, mão estendida, porta aberta, casa arrumada, à espera. Se pelo menos chovesse e eu pudesse fechar os olhos, mergulhar no mar, salvar o que resta. Pouco, quase nada, quase nem suficiente pra tocar a pele, avisar que ainda é vida.

Mas mesmo sem respiração, sem mim, espécie de ausência palpável, espécie de dor, havia uma vontade, alguma coisa cutucando, uma esperança, talvez quando o sol se pusesse, talvez quando o dia mudasse...

sexta-feira, 20 de março de 2009

Ai, amor, vai, põe no vestido uma violeta, no sorriso uma intenção, confesse. Cantarole assim uma música. Qualquer coisa, qualquer coisa que me diga de você. Só não deixe a porta entreaberta, isso não: abra por completo ou tranque a sete chaves. A minha, eu arranquei, quebrei-lhe as paredes de sustento, sou toda sua, pode entrar. Guarde nessa gaveta o medo, pendure ali no cabide as cicatrizes e se ponha assim leve, levíssima, sobre mim. Sabe, tenho estado muitas vezes à beira de escolher o pôr-do-sol mais bonito para dizer-lhe desses clichês que vão agora aqui. Falar desse sobressalto, de você me ocupando os sonhos, os espaços, as entrelinhas. Tenho estado muitas vezes à beira e, em todas, sufocada pela covardia, tenho recuado. Arre, como eu queria que fosse tudo tão mais simples, tudo límpido, claro, que fosse infundado esse meu medo de te ofender o pudor, os preconceitos. Porque em verdade é muito simples o que tenho pra falar. É assim: olha, menina dos olhos coloridos, eu me peguei apaixonada, assim completamente, assim sem pudor do ridículo, e quando você me ligou ontem eu fiquei mesmo criança feliz brincando de roda. Mas não se preocupe. Se não for nada disso, eu saberei desmontar o encantamento, empacotar a esperança, juntar os pedaços...eu saberei morrer. Como já fiz tantas vezes e em dias bem mais vazios.
Às vezes falta o ar, assim mesmo como agora.Falta o chão, a paciência, as virtudes...o vazio cresce e preenche o corpo interio, toma todo o suspiro. Uma palavra?Sufocada.Às vezes até desesperadamente. Sim, é na alma; mas juro, juro, que quando se faz desespero é também no pulmão. E quem sabe não é mesmo de átomos isso que me tapa a garganta.

terça-feira, 17 de março de 2009

Às vezes o cansaço é tanto que não agüento e desisto. Sabe, se não for muito, me tira daqui, fecha meus olhos, canta uma música bonita e me apaga.

domingo, 15 de março de 2009

Em que palavra caberá esse vento fazendo sentido, contando ao corpo estórias completas? E mais todo pensamento doce e livre piruetando pela memória. Todo sorriso achado ao acaso. À deriva, eu já não me pertenço mais: sou toda dela, toda ela. À deriva, eu já também sou toda desespero. Ainda que o que tenha seja apenas a possibilidade, é a possibilidade de tudo e, assim, eu já tenho tudo a perder. Quando a falta é tanta e por tanto tempo, inevitável o preço, as marcas. Enlouquece-se mesmo um pouco a cada dia. Eu que ando de cabeça baixa como se todos, por não ser-me, me fossem superiores. O corpo teso, apavorado, como que sob iminente possibilidade de ser apedrejado. Eu que sou congenitamente cega pra minha beleza, brinco, então, de faz de conta. Mas, agora, esse sobressalto, tão real, tão sem controle. Essa menina me assaltando os sonhos, os espaços, as entrelinhas. "The green eyes, yeah the spotlight, shines upon you. How could anybody deny you?"*. E como saber da simetria, do encontro? Diz, menina, diz, como saber se é seu também o redemoinho?Diz onde você esconde a certeza de que ''no fim da noite serei tua"*.

*Green eyes,Coldplay
*Bárbara, Chico Buarque

sábado, 14 de março de 2009

Eu tenho encontrado tanta beleza na ausência de sentido, nisso da existência brotando, acontecendo sem nobre fim metafísico, feito montanha que o vento molda sem quê nem pra quê. Às vezes o desenho é beleza, às vezes nauseante feiúra, entre uma coisa e outra há ainda as misturas e o espectro todo. E nada, nada, é perenemente a mesma coisa: a gente ganha perdendo, nasce morrendo, acolhe a água entre os dedos que serão a própria saída. Encontrar é perder. Seremos sempre interrompidos. *Fazer da interrupção um caminho novo: enxergar que a interrupção é o caminho novo. Curar a cegueira. A gente empina a cabeça e não desgruda os olhos do pódio metafísico: a felicidade, a paz e o resto todo dos pronomes definidos e absolutos. Nós somos muitas e muitas vezes cegos para o caminho, quando o caminho é só o que há, cheio da vida, a própria vida. Caminho libérrimo e inútil. Clarice: ‘‘ “Obcecado pelo desejo de ser feliz eu perdi minha vida”. Curar-se da cegueira e também despir-se da solenidade: construir a estátua depois meter o martelo. Ah, bendito o dia em que descobri como é sublime enlouquecer e martelar as estátuas todas, ''dessolenizar''. A solenidade tolhe a liberdade, proíbe a mudança, represa o vento para eternizar o desenho. Mas há sempre as brechas, e as brechas são a semente da anarquia. E que sempre existam as estátuas para que sejam marteladas e as represas para que sejam minadas. O embate é que é a vida, a dança, a libérrima existência. Em mim, quero os pensamentos todos em contradição e respeitosa luta, sem vencedores vitalícios, ainda que sedentos pela vitória.

Curar-se da cegueira e também livrar-se da soberba. Minha tristeza ou alegria não é conspiração de universo algum, nem contra nem a favor. Isso de merecer ou desmerecer tem que ser encarado como sentimento que é. Quando depois de muito esforço se perde o jogo, é claro que a gente fica puto, se sentido injustiçado. Mas justiça/injustiça é baliza nossa, código nosso: a vida, a vida se fazendo, prescinde dessas teorias. E assim como a gente ganha, com ou sem esforço, e se lambuza no gosto bom da vitória, a gente também perde. Sabe, não há mistérios. Só há mistérios quando se pressupõe uma verdade absoluta esperando ser descoberta. Há, sim, as perspectivas, há a gente descobrindo maneiras de ver, de encarar, explorando. Isso é que é bonito. Mais uma vez falo em termos de sentimento, a verdade é um sentimento. Aquele que nos percorre, o corpo todo dizendo '' é isso!". Sem absolutismos, como sensação, que passa e dá lugar a outra. De modo que eu não estou dizendo que não busco a verdade, eu só não mais acredito na verdade absoluta e solene a minha espera. O que procuro agora são esses instantes do corpo dando conta dos encontros, do gemido de gozo '' é isso!".
Cada vez mais tento viver o mínimo possível em função do devir. Da esperança. De pensar que se agora é uma hora de dor, eu seria recompensada com um futuro qualquer de alívio. É difícil, duro, encarar que não há recompensas. Sim, sim, pode ser que daqui a pouco eu seja toda alegria, mas não como recompensa, como se o mundo se apiedasse e desse uma folga. Não, assim não. Como jornada, como caminho, como a vida se fazendo, alternância. Cada vez mais tento sofrer melhor. Choro, choro, esperneio, curto a ferida, cutuco, faço manha, peço colo... Mas só por um tempo, nada de se apoiar na dor, solenizar o sofrimento, se fazer de vítima. Depois de sentir o chão, há que se levantar, enxugar o rosto, passar mertiolate nos arranhões, suturar se o corte foi mais profundo, enxertar se mais grave ainda, se não tiver mesmo conserto, procurar uma distração. Fácil?!Fácil nunca é!Mas quem disse que seria fácil? E claro, o esforço não é garantia de nada. Pode ser que, mesmo depois de luta incansável e corajosa, pode ser que a gente não levante. A vida é sem garantias. O que estou dizendo, é que cansei de procurar culpados e justificativas, bengalas, uma esperança paralisante. O que estou dizendo é que ando procurando, e eventualmente achando, as forças de encarar que se hoje o dia foi ruim, o dia foi ruim e pronto. Olha o ruim bem nos olhos, sofre, depois parte pro o outro.

* Fernando Sabino: “De tudo ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria sempre interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro."

quinta-feira, 12 de março de 2009

É tudo mesmo tão incerto, Clarice, e eu também sou uma apavorada. Com a realidade, sua inconstância, seus acasos... Clarice, meu pavor é de criança sem pai nem mãe ou qualquer outra coisa em que se possa botar a mão no meio da correnteza. Eu sou o vazio disso de se ter o outro, disso de se poder ser o que brota de si a cada instante, de não se ter máscaras, disso de não se precisar de máscaras. Agora mesmo,Clarice, o pavor é dessas palavras repetidas quando o que eu mais queria era a doçura de me aceitar assim sempre tão diferente de mim mesma e acarinhar meu monstro, olhar-lhe os olhos sem fugir ou titubear. Eu queria a alma de alguém se demorando em mim, Clarice, é tão desgraçada essa solidão e a ventania e as cartas pra ninguém. Tudo isso, isso tudo ,clarice. Diz, onde fica o abismo e a coragem de se ter medo e mesmo assim pular? Pular que é a liberdade, é a vida. Talvez haverá ainda esse momento em que desistirei e, então, livre, liberta, libertária, pagã, andarei pela praia, fecharei os olhos, mergulharei em mim e o medo de ser flagrada será só mais uma companhia. Talvez...

sábado, 7 de março de 2009

Talvez seja essa a questão agora: como não enlouquecer? Como não enlouquecer com esse vazio.Como atravessar os dias sem distração possível.Aqueles de garganta tapada e corpo moído. Como não enlouquecer?Porque a porta está aberta e do outro lado, se não real, há sim espécie de consolo. E há dias em que há de se fechar os olhos, segurar firme e resistir. Não entrar, não entrar,breathe,breathe,breathe... Foi assim que morri, pela primeira vez, num dia ordinário, sob um céu qualquer, de uma dor dessas humanas. De tudo, a lua que nascia inusitada num final de tarde. De tudo, a cor tão sem igual do sol morrendo na praia. E eu. Ziguezagueando a dor, esperançosa de que talvez ainda não tivesse chegado a hora.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Acordar tem exigido de mim uma força incomun: de novo e de novo tomar consciência do vazio tem exigido de mim pedaços inteiros. Nunca, amor, nunca houve quem me desse a mão e me olhasse na alma e me comesse o corpo, with pure pleasure. A espera agora tem esse gosto de vida inteira e vida inteira é corpo estranho dentro de ferida, afasta os bordos, aumenta a dor. Agora diz, o que eu faço com isso me corroendo a vida? Ah, às vezes eu tenho tanta vontade de rezar: ''Deus ,faça com que Deus exista e se apiede de mim''. Às vezes... Eu sei, não há garantias, eu sei.But i picture you in the sun...

segunda-feira, 2 de março de 2009

hoje está uma tarde estranha, um sol estranho. alguma coisa. um cheiro de café novo. um silêncio de desespero, tenso, denso. o relógio. o relógio não chega a correr, mas acelera. tic tic tic...sem tac. como sendo só o que resta, eu espero. alguma coisa. ai, deus, não brinca assim de suspense comigo. não sopra esse vento tão sabendo por onde anda, tão gente. não organiza assim essa música, que meus pêlos se assustam fácil. os músculos em posição. assim que o primeiro vidro se quebrar...

domingo, 1 de março de 2009

Soube que era perto da morte quando não achou mais a vontade. Soube que não haveria Deus quando soltou a última lembrança.