É tudo mesmo tão incerto, Clarice, e eu também sou uma apavorada. Com a realidade, sua inconstância, seus acasos... Clarice, meu pavor é de criança sem pai nem mãe ou qualquer outra coisa em que se possa botar a mão no meio da correnteza. Eu sou o vazio disso de se ter o outro, disso de se poder ser o que brota de si a cada instante, de não se ter máscaras, disso de não se precisar de máscaras. Agora mesmo,Clarice, o pavor é dessas palavras repetidas quando o que eu mais queria era a doçura de me aceitar assim sempre tão diferente de mim mesma e acarinhar meu monstro, olhar-lhe os olhos sem fugir ou titubear. Eu queria a alma de alguém se demorando em mim, Clarice, é tão desgraçada essa solidão e a ventania e as cartas pra ninguém. Tudo isso, isso tudo ,clarice. Diz, onde fica o abismo e a coragem de se ter medo e mesmo assim pular? Pular que é a liberdade, é a vida. Talvez haverá ainda esse momento em que desistirei e, então, livre, liberta, libertária, pagã, andarei pela praia, fecharei os olhos, mergulharei em mim e o medo de ser flagrada será só mais uma companhia. Talvez...
Nenhum comentário:
Postar um comentário