quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Eu tenho sonhado com o dia em que sairei de casa desde o primeiro instante que a memória consegue alcançar. Não é nem que eu ache que a partir de então serei mais feliz. Pra mim a maior alegria será a liberdade de chorar de porta aberta.

domingo, 6 de dezembro de 2009

A verdade é que você me desarma quando chega perto. Acende o sorriso no rosto, com gosto de pra sempre, e todos os clichês do mundo, todo o amor do mundo. Rouba as palavras, dilui as tristezas e remodela os dias ruins. Você renova. Eu que renasço sempre em seu abraço. E me consola do mundo, do que não deu certo, acolhe as lágrimas. Não que não haja desencontros também, não que não haja obstáculos. Mas eles vêm com a certeza de serem passageiros, de ser só o meio do caminho. Assim como também a certeza não vem de garantias - as quais não podemos ter - mas da sensação tão clara de que sem você o mundo é sem graça, é sem música. A certeza é o desejo profundo tomando conta do corpo de que sejam eternas as tardes que parecem parar pra nos dar passagem.

sábado, 7 de novembro de 2009

Você me contou das coisas boas que tenho e nunca soube. Cimentou rachaduras, abriu janelas, pendurou enfeites. Onde era silêncio, amor-canção. Você me deu o privilégio de sermos nossas.
Eu precisaria de todas as palavras do mundo. Precisaria que elas assentassem sobre minha pele e tomassem o formato do meu corpo. Transpusessem a superfície e se fizessem o que me forma. Por fim, levando minha geometria, se abandonassem em suas mãos. Só assim poderiam explicar a sensação de ficar, entregue, em seus braços.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Não são meus dedos que acariciam sua pele, é ela que os deleita e devora. Põe neles arrepios que, a partir daí, percorrem todo o corpo, vadios e livres a suspender os pêlos, abrindo passagem. É como se, mãos em concha, eu tivesse bebendo o último gole d'água, raro e valioso.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Livraste minh'alma da infértil amargura insalubre. Livraste minha boca do gosto acre-solidão. Do árido fizeste brotar frutos os mais doces e úmidos, fértil amor. A mim, a imensa honra de teu adubo.

domingo, 13 de setembro de 2009

Eu sei que palavra não aliviará o redemoinho de dentro, a tristeza espremendo o peito. Não dissolverá o que fica na graganta, a meio caminho, tornando o ar quase raro. Talvez o tempo, só o tempo. Talvez um abraço, um colo. Era o que eu queria te dar agora e a distância física não permite. E, não podendo, te dou palavras mesmo, umas que avisem dos meus braços a sua espera, do amor que é seu.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Eu quero ninar seu cansaço e enxugar suas lágrimas com sorrisos. Pra cada tristeza que porventura puser no seu peito, quero ter podido te dar alegrias mais e maiores.
A saudade é contínua, sentimento basal, está sempre aqui quando você não está perto. Há, no entanto, essas horas de aperto maior. Há pouco eu acordei com esse maior. Umas lágrimas nos olhos, uma vida sem vida. Querer seu corpo no meu e saber da distância, ah, meu bem, foi o pior gosto que já me veio à alma.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Guardo no bolso os bilhetes de amor. Nos ouvidos, cada palavra doce, o doce som de sua voz. O amor fica espalhado, espamarrado pelo corpo todo, todo o amor. É ele que mima meu sono, mina as tristezas com seu calor de acalanto.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Marília diz:

É tão raro o que a gente tem, meu bem
Esse amor bom, bacana
E recíproco
A gente olhar pro mesmo caminho
Querer o mesmo caminho

domingo, 16 de agosto de 2009

Em mim ficou a impressão de que, ontem, algum sentimento-sensação surpreendeu seu sorriso, encolheu seu corpo, te roubou de você. Em mim, também, a impressão de não ter achado o abraço certo, silêncio ou palavra que te fizessem sentir acolhida. Ontem já é hoje e eu estou aqui, menina, pro abraço, pro silêncio, pra palavra. Junto, também, mesmo sabendo que talvez não baste, guardo um "desculpe" sincero, caso tenha sido por mim. Ontem já é hoje, hoje será amanhã e eu continuarei aqui, chegue a hora que você chegar.
É que pra você, meu amor, quero oferecer o melhor de mim, sempre. E sempre não é possível, porque não sou toda o melhor. Essa é a mais óbvia das constatações. Afinal, ninguém é mesmo feito só do melhor. No entanto, não é por ser óbvia que ela é isenta de dor. Porque, mesmo sabendo não ser possível, às vezes quero arrancar do seu peito qualquer tristeza, a menor que seja. E tentando adivinhar onde ela fica aí guardada, invado seu espaço, violo seu silêncio, quem sabe até agravo os arranhões. Mas o que quero mesmo dizer, meu bem, é que a você entrego minhas partes, todas: a varanda aberta, os porões em breu, a meia-luz entre eles. E de você recebo as suas, todas, inteiras, as tristezas incrustadas no peito inclusive.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Quando não te vejo é como se o mundo ficasse em suspenso. Deserto, estranho. A vida passando lenta, arrastada, bem lá fora de mim. Quando não te vejo é como se o corpo ficasse menor. Amontoado, apertado. Faltando espaço pra tanta saudade.

domingo, 9 de agosto de 2009

Pra quando você precisar falar, guardo aqui minha atenção. Pra quando a gente se encontrar, meus braços abertos. As mãos pra colher-lhe as lágrimas. Os lábios pra acalantar o corpo. Pra você, menina, guardo aqui amor e morangos.

domingo, 26 de julho de 2009

A saudade está sempre aqui, em todos os cantos. Ela é relógio e faz conta das horas. Ela é palavra e reconta o amor, montando estórias das lembranças. Em tardes como essa, ela é também criança que desanda a espernear e só sossega quando você chega.

sábado, 11 de julho de 2009

Pra quando o mundo estiver aos pedaços, desarrumado e dilacerado, pra quando a alma estiver pequena, pisoteada e exausta, guardo nos olhos seu rosto assim perto do meu. E nem mesmo preciso de esforço pra guardar-lhe os detalhes, os míninos, todos. Eles simplesmente se instalam, põem-se a si mesmos na memória, indeléveis e claros, brilhantes, límpidos. Inevitáveis como o suspiro de alívio de quando, enfim, te vejo outra vez.

domingo, 5 de julho de 2009

Às vezes fico imaginando o exato segundo do nosso encontro. O exato segundo em que você entrou na minha vida. Esse instante eu quero guardar, feito preciosidade. Esse instante eu pressinto no corpo, agradecida.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Haverá dias em que o melhor de mim não será suficiente. Haverá dias em que o melhor de mim não aliviará sua dor. Terei eu, assim, de me acostumar às impotências, às impossibilidades. E também às marcas que não deixei, todas de alguma forma indeléveis. Não vou aqui negar meu medo e meu ciúme, irracionais, infantis, humanos. Vou, sim, dizer que, ainda assim, te seguirei lado a lado com o maior dos sorrisos e o melhor do amor. Porque é o que quero, porque é o que me faz feliz.
Você põe quentura no peito e rumo na vida.

domingo, 21 de junho de 2009

Que o nosso medo seja uma lembrança da fragilidade escondida, mas que nunca nos tome a rédea. Que a gente se apavore ao olhar o sem chão das possibilidades incertas e mesmo assim ache coragem pra pular. Mesmo sem saber no que vai dar, mesmo sem saber em que cicatrizes ou em que doçuras. E não é que eu não saiba do seu medo. Eu sei, eu sei. Sei do peito apertado, do ar rarefeito, da dor da possibilidade. Sei tanto assim porque ele também é meu, também percorre essa alma de cá. Mas há uma coisa maior que me tranquiliza no meio do redomoinho. Uma fé, uma sensação, uma certeza de que nosso encontro é encontro e é raro: tem raiz ,tem pronfundeza, tem chão. Uma fé, uma sensação, uma certeza de que eu vou ligar e o amor ainda estará aí.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sim, não há garantias. Mesmo sendo apenas iniciadas nisso de existir, já sabemos bem que o próximo instante é sempre do acaso. Mas, sabe, meu bem, não é de garantias que estou falando quando digo da certeza. É de uma sensação, é de um sentimento. Da plenitude que toma meu corpo, meus sentidos, quando te vejo rosto misturado ao meu. Aí, me vem uma certeza-sensação de que encontrei o que procurava e mais, muito mais. Uma certeza-sensação de sorte na vida, de benção, de alegria. Um gosto bom.

Eu também tenho medo. Às vezes, até pavor. Medo de que a vida te leve, de que você se leve. Mas quando me faço assim apavorada, penso logo que apenas duas são causas justas para o fim: o desamor e a deslealdade. Do contrário, meu bem, não pense nunca em ir embora. Do contrário, continue aqui, mãos dadas, alma entregue, que a gente enfrenta os obstáculos, as dores, os medos, os dias ruins, as crises, as dúvidas, as instabilidades, o acaso. Porque haverá obstáculos e dores e medos e dias ruins e crises e dúvidas e instabilidades e acaso. Contanto que haja o amor e a lealdade, meu amor, meu amor, eu não arredarei pé da honra que é ser sua menina.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Pode dizer por aí, pode anunciar, que, mesmo quando acaso de vida nocautear corpo e espírito , eu terei sempre e irremediavelmente a imagem doce e quente de você sobre mim.

terça-feira, 12 de maio de 2009

São tantas coisas pra dizer, tantas! As mesmas, as de sempre, e mais outras, umas que talvez ainda nem saiba e só pressinta. Que alguma coisa aconteceu já naquele primeiro recado, que o primeiro ''oi, tudo bem?" ainda passeia pelo corpo... O primeiro sorriso, cada sorriso. O primeiro beijo, cada beijo. "Meu bem" em ecolalia, meu bem, meu bem. São tantas coisas pra agredecer, tantas! Por isso: muito obrigada. Não como quem agredece favor deliberado, não, mas como a terra seca agradece a chuva que umidifica. E você é a chuva mais doce e alegre. Bonita, bonita, dessas que a gente põe a cadeira na varanda e fica olhando cair, adubando a terra e a alma.

domingo, 10 de maio de 2009

Bilhete ao grande amor

Ah, menina, é assim, olha, suas lágrimas agora são minhas, também e inevitavelmente. Queria, então, correr até você, estancar as mágoas, embalar o sofrimento, te ninar até o sono vir. Se , pelo menos, houvesse um consolo, uma palavra, um gesto, qualquer coisa que te pusesse outra vez em leveza e sorriso... Mas, não sei, não sei, também queria te dizer assim: chore, menina, chore. Chore a dor e a alma. Chore, que disso também se faz a vida. E se não houver fim, haverá trégua, e se nem mesmo trégua, eu ficarei por aqui pra amar inclusive as feridas.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Meu bem, meu bem, você ocupa mais, muito mais, que os pensamentos: ocupa cada centímetro de corpo, ocupa cada palmo de alma. Como menina traquina, você zanza e corre e se esconde e faz deles quintal, e faz deles festa. Mas seja bem-vinda, é tudo seu, não vá embora, não vá embora. Nunca. Fique aqui, assim, passeando pela lembrança, como nunca há de sair da minha boca o seu gosto. Fique aqui, assim, pra que eu possa te procurar no meio do dia e, feito déjà vu, te ter um pouco, como acalanto pra saudade. Olha, menina, não esquente não, não esquente se o calendário diz ser tão pouco tempo, não esquente, que ele é bobo e não sabe do gosto de infinito que tem sua presença.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Como se tivesse saído do meu pensamento, da minha saudade, ela surgiu, linda, linda, daquela tarde, daquela tarde que parecia até perdida.

domingo, 26 de abril de 2009

E por mais palavras que ache, por mais bonitas que elas sejam, por mais significados que tenham, meu bem, meu bem, não há palavras. Mesmo quando digo que meu amor é amor e é tanto e é vasto e tem gosto do que vai durar, é mais que isso, é muito mais que isso. Às vezes até eu queria que você entrasse em mim, pra que pudesse ver...pra que pudesse ver que é tão mais, tão mais que tudo isso.Mais, muito mais, do que se pode dizer com alfabetos. Menina, minha menina, eu sei que são muitos os clichês, eu sei. Mas,olha, eles são todos sinceros. Só mentem quando não dizem do que não pode ser dito, do que fica no ar, na alegria do meu sorriso quando te vê, no sentido que faz meu corpo quando te toca.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Hoje, fiz, malina, pequena traquinagem: passei longo minuto me olhando no espelho. Procurando o que te agrada, o que tanto te agrada. E por que não, já que estava ali, por que não o que tanto poderia me agradar?E, sabe, encontrei mesmo um sorriso. Mas um que só você pode acordar. Uma alegria que é sem nome, que é mais do que alegria, mais do que paixão, mais do que amor, talvez tudo junto, talvez mais do que tudo junto. Também um pouco de medo. Medo de sufocá-la com essa minha carência quase ancestral. Medo da fraqueza que, distraída, tira dos bolsos algemas, quando o que eu quero te dar é saia rodada ao vento. Liberdade, menina, liberdade. Ah, meu bem, meu bem, é que eu te amo tanto e tão buarquemente!

terça-feira, 21 de abril de 2009

Eu quero a gente pra sempre assim, deitadas no banco de trás, brincando de contar segredos.

sábado, 18 de abril de 2009

E ontem eu queria mesmo era mergulhar no seu decote, pôr-lhe as mãos e a fome. Sentir-lhe o gosto e o gozo, eu queria.

Texto em construção...

Lá fora, o sol se põe e põe o céu laranja. E o mundo parece calar, como que em respeito ao nosso encontro. A vida meio que se arruma, se enfeita, se conserta, quando a gente chega. Oferece assento confortável e sorriso cúmplice, nos fazendo visitantes ilustres.Há dias até em que a chuva cai e se mistura à alma ensolarada. Aqui dentro ?! Aqui dentro é festa! Coração dançante, planos pras bodas. Bárbaras e coralinas. Em cada canto, sua boca entreaberta e esse seu jeito de se abandonar em meus braços.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Minhas intenções são mesmo as terceiras: quero pôr, na boca, sua alma coberta de silêncio e, nas mãos, seu corpo repleto de esquinas. Quero ficar assim, olhando o movimento, prestando atenção no que te agrada. Quero dizer as bobagens todas, as juras todas e te aconchegar quando o dia for ruim e estourar poesias quando for de pura alegria. Menina, que nos aceitemos da única maneira válida: livres, libertas, libertárias. Pagãs! Despidas não só das roupas, mas dos conceitos todos. E, ah, meu amor, cheias, cheias dos sentidos!

domingo, 12 de abril de 2009

De repente tudo fez um sentido sem palavras, um sentido que se apreende com o corpo e a alma entregues. Meu amor, minha flor, minha menina*...E quando pensei não ser mais possível, você trouxe de volta a vida e esse sereno alegre de verão.

*Zeca Baleiro

sábado, 11 de abril de 2009

Então vem, amor, vem. Vem, que os sorrisos são todos seus e as músicas eu prometo colher, fresquinhas, no pé. Vem e deita aqui o corpo, o sono, a alma, o cansaço, as alegrias: eu quero tudo. Vem e deixa eu te fazer confessar os recônditos, o escondido, o guardado a sete chaves. Deixa eu arrancar sua roupa e também seus muros. Vem que o encontro é nosso e a vida está em festa!

Mãos dadas na tarde mais cotidiana, beijo de língua e de alma no mar nublado e depois a chuva pra lavar as gargalhadas, uma frase safada no ouvido desavisado e, pronto, era a vida, ela e ela.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Já aviso de antemão, essa é uma carta de clichês e muito açúcar. Cheia das borboletas no estômago e dos arrepios sem aviso. É uma carta pra dizer que, hoje, acordei com um gosto bom na alma, acordei com você fazendo rodopios, estripulias, me percorrendo o espírito. Sabe, tem alguma coisa no seu silêncio, um perfume, alguma coisa que voa, que é livre. Às vezes sinto que ela pousa, assim entregue, no meu colo e, então, é o que de mais lindo se pode ver. Depois alça vôo, feito bicho de asas que é. Mas eu não reclamo, é assim que tem que ser. Pelo contrário, acho mesmo bonito, digno, certo: "seu gosto é bem do jeito que eu gosto". Sendo assim, põe Chico na vitrola e vem dançar!

quinta-feira, 26 de março de 2009

Então fecha os olhos e pula. Pula, que não há outro caminho e o salto sempre foi. Pula, que pode ser raso e arrancar sangue, mas pode ser fundo e arrancar gozo. Pula, que haverá o sangue e haverá o gozo.

Por mais liberta que estivesse, havia ainda um constrangimento, um encolhimento do corpo e da alma. Como último pensamento, passou-lhe ainda pela cabeça que poderia ser de frio os músculos flectidos:também.Era do frio, do medo, do gozo...era da plenitude a qual nunca havia se permitido experimentar.


sábado, 21 de março de 2009

Uma palavra e nada mais existiria. Os estilhaços a serem recolhidos, a vida a ser transformada...Os botões em preto e branco assim combinando com o telefone mudo, com a mensagens sem resposta. E era difícil respirar: alguma coisa tapando e cegando. Que o amor não era pra mim, que a poesia não era pra mim, como não perceber quando tudo era tão claro, tão claro?Mais uma vez sozinha, mão estendida, porta aberta, casa arrumada, à espera. Se pelo menos chovesse e eu pudesse fechar os olhos, mergulhar no mar, salvar o que resta. Pouco, quase nada, quase nem suficiente pra tocar a pele, avisar que ainda é vida.

Mas mesmo sem respiração, sem mim, espécie de ausência palpável, espécie de dor, havia uma vontade, alguma coisa cutucando, uma esperança, talvez quando o sol se pusesse, talvez quando o dia mudasse...

sexta-feira, 20 de março de 2009

Ai, amor, vai, põe no vestido uma violeta, no sorriso uma intenção, confesse. Cantarole assim uma música. Qualquer coisa, qualquer coisa que me diga de você. Só não deixe a porta entreaberta, isso não: abra por completo ou tranque a sete chaves. A minha, eu arranquei, quebrei-lhe as paredes de sustento, sou toda sua, pode entrar. Guarde nessa gaveta o medo, pendure ali no cabide as cicatrizes e se ponha assim leve, levíssima, sobre mim. Sabe, tenho estado muitas vezes à beira de escolher o pôr-do-sol mais bonito para dizer-lhe desses clichês que vão agora aqui. Falar desse sobressalto, de você me ocupando os sonhos, os espaços, as entrelinhas. Tenho estado muitas vezes à beira e, em todas, sufocada pela covardia, tenho recuado. Arre, como eu queria que fosse tudo tão mais simples, tudo límpido, claro, que fosse infundado esse meu medo de te ofender o pudor, os preconceitos. Porque em verdade é muito simples o que tenho pra falar. É assim: olha, menina dos olhos coloridos, eu me peguei apaixonada, assim completamente, assim sem pudor do ridículo, e quando você me ligou ontem eu fiquei mesmo criança feliz brincando de roda. Mas não se preocupe. Se não for nada disso, eu saberei desmontar o encantamento, empacotar a esperança, juntar os pedaços...eu saberei morrer. Como já fiz tantas vezes e em dias bem mais vazios.
Às vezes falta o ar, assim mesmo como agora.Falta o chão, a paciência, as virtudes...o vazio cresce e preenche o corpo interio, toma todo o suspiro. Uma palavra?Sufocada.Às vezes até desesperadamente. Sim, é na alma; mas juro, juro, que quando se faz desespero é também no pulmão. E quem sabe não é mesmo de átomos isso que me tapa a garganta.

terça-feira, 17 de março de 2009

Às vezes o cansaço é tanto que não agüento e desisto. Sabe, se não for muito, me tira daqui, fecha meus olhos, canta uma música bonita e me apaga.

domingo, 15 de março de 2009

Em que palavra caberá esse vento fazendo sentido, contando ao corpo estórias completas? E mais todo pensamento doce e livre piruetando pela memória. Todo sorriso achado ao acaso. À deriva, eu já não me pertenço mais: sou toda dela, toda ela. À deriva, eu já também sou toda desespero. Ainda que o que tenha seja apenas a possibilidade, é a possibilidade de tudo e, assim, eu já tenho tudo a perder. Quando a falta é tanta e por tanto tempo, inevitável o preço, as marcas. Enlouquece-se mesmo um pouco a cada dia. Eu que ando de cabeça baixa como se todos, por não ser-me, me fossem superiores. O corpo teso, apavorado, como que sob iminente possibilidade de ser apedrejado. Eu que sou congenitamente cega pra minha beleza, brinco, então, de faz de conta. Mas, agora, esse sobressalto, tão real, tão sem controle. Essa menina me assaltando os sonhos, os espaços, as entrelinhas. "The green eyes, yeah the spotlight, shines upon you. How could anybody deny you?"*. E como saber da simetria, do encontro? Diz, menina, diz, como saber se é seu também o redemoinho?Diz onde você esconde a certeza de que ''no fim da noite serei tua"*.

*Green eyes,Coldplay
*Bárbara, Chico Buarque

sábado, 14 de março de 2009

Eu tenho encontrado tanta beleza na ausência de sentido, nisso da existência brotando, acontecendo sem nobre fim metafísico, feito montanha que o vento molda sem quê nem pra quê. Às vezes o desenho é beleza, às vezes nauseante feiúra, entre uma coisa e outra há ainda as misturas e o espectro todo. E nada, nada, é perenemente a mesma coisa: a gente ganha perdendo, nasce morrendo, acolhe a água entre os dedos que serão a própria saída. Encontrar é perder. Seremos sempre interrompidos. *Fazer da interrupção um caminho novo: enxergar que a interrupção é o caminho novo. Curar a cegueira. A gente empina a cabeça e não desgruda os olhos do pódio metafísico: a felicidade, a paz e o resto todo dos pronomes definidos e absolutos. Nós somos muitas e muitas vezes cegos para o caminho, quando o caminho é só o que há, cheio da vida, a própria vida. Caminho libérrimo e inútil. Clarice: ‘‘ “Obcecado pelo desejo de ser feliz eu perdi minha vida”. Curar-se da cegueira e também despir-se da solenidade: construir a estátua depois meter o martelo. Ah, bendito o dia em que descobri como é sublime enlouquecer e martelar as estátuas todas, ''dessolenizar''. A solenidade tolhe a liberdade, proíbe a mudança, represa o vento para eternizar o desenho. Mas há sempre as brechas, e as brechas são a semente da anarquia. E que sempre existam as estátuas para que sejam marteladas e as represas para que sejam minadas. O embate é que é a vida, a dança, a libérrima existência. Em mim, quero os pensamentos todos em contradição e respeitosa luta, sem vencedores vitalícios, ainda que sedentos pela vitória.

Curar-se da cegueira e também livrar-se da soberba. Minha tristeza ou alegria não é conspiração de universo algum, nem contra nem a favor. Isso de merecer ou desmerecer tem que ser encarado como sentimento que é. Quando depois de muito esforço se perde o jogo, é claro que a gente fica puto, se sentido injustiçado. Mas justiça/injustiça é baliza nossa, código nosso: a vida, a vida se fazendo, prescinde dessas teorias. E assim como a gente ganha, com ou sem esforço, e se lambuza no gosto bom da vitória, a gente também perde. Sabe, não há mistérios. Só há mistérios quando se pressupõe uma verdade absoluta esperando ser descoberta. Há, sim, as perspectivas, há a gente descobrindo maneiras de ver, de encarar, explorando. Isso é que é bonito. Mais uma vez falo em termos de sentimento, a verdade é um sentimento. Aquele que nos percorre, o corpo todo dizendo '' é isso!". Sem absolutismos, como sensação, que passa e dá lugar a outra. De modo que eu não estou dizendo que não busco a verdade, eu só não mais acredito na verdade absoluta e solene a minha espera. O que procuro agora são esses instantes do corpo dando conta dos encontros, do gemido de gozo '' é isso!".
Cada vez mais tento viver o mínimo possível em função do devir. Da esperança. De pensar que se agora é uma hora de dor, eu seria recompensada com um futuro qualquer de alívio. É difícil, duro, encarar que não há recompensas. Sim, sim, pode ser que daqui a pouco eu seja toda alegria, mas não como recompensa, como se o mundo se apiedasse e desse uma folga. Não, assim não. Como jornada, como caminho, como a vida se fazendo, alternância. Cada vez mais tento sofrer melhor. Choro, choro, esperneio, curto a ferida, cutuco, faço manha, peço colo... Mas só por um tempo, nada de se apoiar na dor, solenizar o sofrimento, se fazer de vítima. Depois de sentir o chão, há que se levantar, enxugar o rosto, passar mertiolate nos arranhões, suturar se o corte foi mais profundo, enxertar se mais grave ainda, se não tiver mesmo conserto, procurar uma distração. Fácil?!Fácil nunca é!Mas quem disse que seria fácil? E claro, o esforço não é garantia de nada. Pode ser que, mesmo depois de luta incansável e corajosa, pode ser que a gente não levante. A vida é sem garantias. O que estou dizendo, é que cansei de procurar culpados e justificativas, bengalas, uma esperança paralisante. O que estou dizendo é que ando procurando, e eventualmente achando, as forças de encarar que se hoje o dia foi ruim, o dia foi ruim e pronto. Olha o ruim bem nos olhos, sofre, depois parte pro o outro.

* Fernando Sabino: “De tudo ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria sempre interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro."

quinta-feira, 12 de março de 2009

É tudo mesmo tão incerto, Clarice, e eu também sou uma apavorada. Com a realidade, sua inconstância, seus acasos... Clarice, meu pavor é de criança sem pai nem mãe ou qualquer outra coisa em que se possa botar a mão no meio da correnteza. Eu sou o vazio disso de se ter o outro, disso de se poder ser o que brota de si a cada instante, de não se ter máscaras, disso de não se precisar de máscaras. Agora mesmo,Clarice, o pavor é dessas palavras repetidas quando o que eu mais queria era a doçura de me aceitar assim sempre tão diferente de mim mesma e acarinhar meu monstro, olhar-lhe os olhos sem fugir ou titubear. Eu queria a alma de alguém se demorando em mim, Clarice, é tão desgraçada essa solidão e a ventania e as cartas pra ninguém. Tudo isso, isso tudo ,clarice. Diz, onde fica o abismo e a coragem de se ter medo e mesmo assim pular? Pular que é a liberdade, é a vida. Talvez haverá ainda esse momento em que desistirei e, então, livre, liberta, libertária, pagã, andarei pela praia, fecharei os olhos, mergulharei em mim e o medo de ser flagrada será só mais uma companhia. Talvez...

sábado, 7 de março de 2009

Talvez seja essa a questão agora: como não enlouquecer? Como não enlouquecer com esse vazio.Como atravessar os dias sem distração possível.Aqueles de garganta tapada e corpo moído. Como não enlouquecer?Porque a porta está aberta e do outro lado, se não real, há sim espécie de consolo. E há dias em que há de se fechar os olhos, segurar firme e resistir. Não entrar, não entrar,breathe,breathe,breathe... Foi assim que morri, pela primeira vez, num dia ordinário, sob um céu qualquer, de uma dor dessas humanas. De tudo, a lua que nascia inusitada num final de tarde. De tudo, a cor tão sem igual do sol morrendo na praia. E eu. Ziguezagueando a dor, esperançosa de que talvez ainda não tivesse chegado a hora.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Acordar tem exigido de mim uma força incomun: de novo e de novo tomar consciência do vazio tem exigido de mim pedaços inteiros. Nunca, amor, nunca houve quem me desse a mão e me olhasse na alma e me comesse o corpo, with pure pleasure. A espera agora tem esse gosto de vida inteira e vida inteira é corpo estranho dentro de ferida, afasta os bordos, aumenta a dor. Agora diz, o que eu faço com isso me corroendo a vida? Ah, às vezes eu tenho tanta vontade de rezar: ''Deus ,faça com que Deus exista e se apiede de mim''. Às vezes... Eu sei, não há garantias, eu sei.But i picture you in the sun...

segunda-feira, 2 de março de 2009

hoje está uma tarde estranha, um sol estranho. alguma coisa. um cheiro de café novo. um silêncio de desespero, tenso, denso. o relógio. o relógio não chega a correr, mas acelera. tic tic tic...sem tac. como sendo só o que resta, eu espero. alguma coisa. ai, deus, não brinca assim de suspense comigo. não sopra esse vento tão sabendo por onde anda, tão gente. não organiza assim essa música, que meus pêlos se assustam fácil. os músculos em posição. assim que o primeiro vidro se quebrar...

domingo, 1 de março de 2009

Soube que era perto da morte quando não achou mais a vontade. Soube que não haveria Deus quando soltou a última lembrança.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Consumida, havia chegado a hora de desistir e desabar.Com ela só uma nesga de respiração e uma frase de Clarice: “ na mão frouxa tudo cabe”.
Hoje atravessarei hoje agarrada à chuva e a uma canção de ninar, recolhendo os medos para, quem sabe, enfrentá-los quando o chão secar e a música se puser.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Tinha esse fascínio por praia em dia de chuva. A água sobre água trazia-lhe ao corpo uma sensação que, imaginava ela, seria a mesma que sentiria quando fosse tocada pela primeira vez por uma mulher.
Eu tenho tanto medo, de tudo: meu corpo poltrão sempre pronto pra correr.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Eram de nojo: a palavra desacompanhada e o gesto involuntário. Era um corpo nauseando outro corpo, era meu corpo nauseando outro corpo. E era a solidão absoluta, a solidão absoluta. O rato, Clarice, eu era o rato morto da Avenida Copacabana. Agora, só queria mesmo era aprender como um corpo assim tão nauseante perdoa a si mesmo.
Como, Clarice, como perdoar-se? Como um corpo aconchega-se no próprio colo e acarinha a própria dor?